A outra face da lua, 2000

A Pintura de Inez Wijnhorst
Penélope e a Outra Face da Lua

Donde vem este ardor?
Donde vem esta voz?
(…)
Vem do fundo de mim
Vem do fundo de nós

A vida da jovem Inez Wijnhorst é uma lição de perseverança e de talento. Holandesa, radicada em Portugal há nove anos, fez o curso de Belas Artes em Lisboa, depois de ter completado uma formação artística exigente no seu país de origem. Houve muitas dificuldades e enfrentar, a lingua, a aprendizagem e a sobrevivência no estrangeiro e todas elas a sua coragem ultrapassou guiada pela vontade de criar um estilo, uma obra, a que foi dando forma lentamente, com a certeza dos milagres necessários. O Prémio Amadeo Souza-Coardoso, uma das mais altas distinções entre nós no domínio das artes plásticas, pde ter sido uma surpresa para muitos, até para ela. O reconhecimento costuma tardar e nem sempre atinge as figuras certas e muito raremente os jovens. Não foi assim neste caso. Inez vinha preparando esse sucesso laboriosamente, sem se aperceber, de tal forma o seu trabalho lhe absorvia e absorve ainda. Esse reconhecimento justo, é no entanto, dada a sua juventude apenas o limiar do que se adivinha ser a evolução crescente da sua expressão que vai tecendo com energia, ilusão e fulgor.

“Tecer”, neste caso não é uma metáfora, mas a descrição de um labor minucioso, que ela não desfaz todos os dias, como Penélope, mas refaz, à espera de uma revelação maravilhosa, borboleta que sempre parece pousar silenciosamente nas suas telas, aí batendo as asas coloridas e recusando-se a escolher outro território para morar. Torres Garcia, a sua inspiração nas escritas primitivas ou a sua valorização dos tons neutros, será uma referência possível, como os Pictographs de Gotlieb, as suas redes povoadas de sinais crípticos, mas Inez alimentou o olhar na pátria de Rembrandt e de van Gogh, criou uma linguagem inteiramente nova, de profunda originalidade e de grande sentido poético.

Assistimos à lenta génise de uma gramática surpreendente, conduzida pelo amor à gravura e pela sua prática. Um projecto em 1996, na E.S.B.A.L. irá ligar de modo duradouro, os caminhos da pintura e da gravura na sua obra. Juntando minúsculas chapas gravadas de modo rude, em grafismos quase infantis, que uma rigorosa formação académica na Holanda não deixaria prever. Forma um painel dividido em quadradinhos que imprime sobre tecido, grande formato reunindo pela primeira vez verdadeiramente os mil fragmentos do seu universo.

Estamos no ponto de partida da sua estética, as experiências que realizou antes não são mais do que a antecâmara de uma criação anunciada. Não se trata de um “puzzle”, estes figurinhas subversivas, estes fragmentos indecifráveis inspirados pelas corrosivas experiências do olhar e dos sentidos, não permitam reconstituir uma imagem mais legivel na sua totalidade. É o explosivo jogo da fragmentação que tem aqui o protagonismo, figura principal de um estilo que se vai definindo segundo as regras de uma completa liberdade, de uma invenção que obscuramente procura e encontra os seus rumos.

Sobre a tela multiplicam-se pequenos suportes de uma matéria moldável, na qual imprime, ao modo da gravura, os signos do seu universo, signos visuais a que se acrescentam, aqui e além, palavras soltas em várias línguas, mostrando a emergência da escrita e a necessidade de misturar linguagens. Incisões firmes e doce, criando linhas ligeiramente trémulas, quentes, numa afirmação de fragilidade e exuberante energia. Também as cores são doces, cores neutras ou de uma intensidade que se dilui suavemente sem perder o brilho.

O que vemos sobre a tela, estes morosos e delicados fragmentos habitados de ínfimas e íntimas ilusões e de pequenas realidades quotidianas, tão enlaçadas que se torna impossível destrinçá-las, não é um inventário do visível, mas a sua reordenação segundo uma nova lógica, do maravilhoso, que visita o espaço e as suas formas, redimindo-as, roubando-as ao tempo devorador.

O tempo vibra secretamente nestas teias da memória, sucessões, séries finitas de instantes que se acendem e apagam infinitamente. Uma metáfora da vida, do seu lado oculto, mistério presente, cintilando, infiltrando-se nas malhas do visível, transfigurando-o com a sua luz e o seu silêncio. A outra face da lua.

A Outra Face da Lua

Nas pinturas mais recentes, de que faz parte o conjunto actual, a rede subtil na qual a artista deseja envolver, como ela própria confessa, o espectador, torna-se uma estrutura oscilante, flexível, que parece adquirir vida própria, impelida por movimentos caprichosos. Vemos afirmarem-se os grandes ritmos da linha, espaços de telão definidos por contrastes de luz e sombra, no fluxo luxuriante, que reconstitui o mágico tecido das aparências, novo território de sensações, de percursos do olhar e dos sonhos. Reconhecemos a ordem e a caudalosa efervescência de um universo, labiríntico e minucioso, de uma halucinante minúcia. Uma nova ordenação do mundo, repetindo o gesto da criação, do vivido, daquilo que de um modo ou de outro aflorou à consciência depois de experimentado na realidade ou no flutuante e ambíguo continente dos sonhos.

Na sua teia laboriosa e esplêndida, a artista parece desejar a totalidade da vida. Não há fixidez, mas um caleidoscópio de sensações e fantasias. Este tecido é cheio de rupturas, é fragmentado em mil pedaços, mosaicos de uma totalidade dispersa em cada uma das telas, fragmentos ainda, repletos de escritas ilegíveis, incisões profundas, frágies marcas do desejo de durar, de permanecer, de guardar as dávidas da constante metamorfose dos aspectos. Os traços aparentemente inábeis, esta escrita exuberante, audaciosa, infantil, colocam-nos perante o universo do humano, de uma fragilidade essencial, assumida pelo sujeito que inscreve nas telas – páginas, e não apenas a sua biografia, mas uma contemporânea experiência da perturbação perante a voracidade do tempo e a fragmentação do sentido.

Trata-se antes de mais de uma escrita plástica, com as sua imagens-signos: objectos do quotidiano, arquitecturas, flores, folhas, peixes, borboletas, estrelas, anjos e sinais abstractos: espirais, cubos de uma geometria secreta e sobre tudo isto os signos do humano, a mão, figuras dançarinas, vultos desabitados, puros contornos. Escrita plástica, delicadamente sensual, no calor das suas incisões conferindo vida à linha e na vibração das cores suavemente acesas. Um sol íntimo anima estas telas, irradiando o seu brilho em cada uma das partículas deste universo. Expande-se, enquanto uma linha discreta, mas firme, serpentina, parece aconselhar como o fio de Ariadne, um percurso.

Ritmos imprevisíveis animam estes espaços. De uma tela para outra cresce uma esfera, planeta desconhecido, repleto, pululando de novas formas. Aprisionadas e livres, aceitando a ordem e subvertendo-a, criando as suas próprias leis, sinais em mutação. Migração a que esta escrita apela. Pequenas fenda, rasgando o tecido da metáfora, apelam à comunicação com uma alteridade sugerida, apontam um além de ambígua leitura. Nascimento ou morte, limiar, abertura no seio do labirinto, azul ou alquimicamente rubra, ígnea, ou dourada.

Permanece o mistério do sentido e da forma, acrescentando a sedução desta pintura, verdadeiro tecido plástico da ambiguidade, da ordem e da desordem, da fragmentação e da totalidade, da forma, da linha e da sua negação, da luz e da sombra. E a beleza doce e radiante destes écrans rasgados, pessoalíssima expressão de um universo, imagens que vêm enriquecer com os tesouros de uma sábia e maravilhosa ingenuidade, com o brilho secreto da sua poesia, o inesgotável reportório da sensibilidade contemporânea.

Maria João Fernandes, 
Fevereiro 2000


agradecimentos:
Galeria Jorge Shirley, Porto.
Maria João Fernandes